/ Eu Você e Eles

10ago

Algumas lembranças são diferentes

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Anne Hathaway e Jim Sturgess em cena do filme Um Dia, de 2011

[Você pode ler esse texto ao som de Eu Me Lembro, da Clarice Falcão com o Silva ♫]

Você lembra quando conheceu seu namorado ou namorada? O modo como olhou naquela primeira vez? Você lembra do sorriso que deu e se recebeu aquele riso tímido de volta? Eu me lembro.

Lembro que andava pela avenida mais famosa da cidade até que avistei você, que me olhava mais do que era normal. Mas eu não ligava, devolvia o olhar com toda a força que podia, como se minha timidez tivesse ido embora com vergonha dos seus olhares. Eu me lembro de tudo. Do primeiro “eu te amo”, até o último adeus. Lembro que você falava que não importava para quantos havíamos dito “eu te amo”, você acreditava que esse sentimento poderia existir por um dia ou também por anos. Eu lembro que sempre discordava de você.

Eu me lembro daquela nossa viagem. Da minha loucura em aceitar passar uns dias com você, sendo que mal te conhecia. Estávamos juntos há algumas semanas e, mesmo assim, eu aceitei te seguir em uma de suas viagens. Loucura, não é?

Eu me lembro de uma de nossas brigas, daqueles dias sem se falar que foram interrompidos por um simples “oi” e acabaram por aí. Lembro de tudo.

Lembro-me também do nosso último encontro. Foi anos depois de todas essas lembranças que listei acima e esse encontro automaticamente se juntou a elas, pois nunca esquecerei que você não se lembrou que não viveu nada daquilo que eu havia vivido.

Quando te perguntei do dia que nos conhecemos, você sorriu e resumiu aquilo em algumas poucas palavras e quando falou da nossa viagem, disse “fomos pra onde mesmo?”. Foi estranho saber que você não dividia nenhuma lembrança comigo, era como se eu tivesse experimentado tudo aquilo sozinho, era como se você não estivesse presente. Parece que eu havia sumido de suas memórias.

Depois dessa nossa última conversa parei para pensar sobre o quanto as lembranças são diferentes para diversas pessoas. É como naquela música do Silva com a Clarice Falcão, você se lembra de algo e eu me lembro de outro. Naquele momento que nos conhecemos tivemos experiências completamente diferentes, mas acho que elas funcionam de acordo com nossas vidas. O que você acha?

Agora eu sei que algumas lembranças são diferentes, ou melhor, sei que nós lembramos de maneiras diferentes. No meu caso acredito que gero um romance excessivo em cima daquelas lembranças, principalmente por que são as únicas coisas que ainda tenho de você. E por isso as vivo ao máximo e dou mais brilho para essas histórias. É como se sua folha de lembranças ainda estivesse preto e branco e a minha toda colorida.

Acho que deixo minha lembranças mais bonitas. E você, faz o que com as suas?

31jul

As bagagens que carregamos

Postado por às em Amor, Eu Você e Eles, Relacionamento
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Zooey Deschanel e Joseph Gordon-Levitt em imagem de (500) Dias com Ela, filme de 2009

[Você pode ler esse texto ao som da música Waste of Time, da MØ ♫]

Durante nossa vida adulta conhecemos várias pessoas, algumas passam por nós pois precisam de alguma ajuda, outras passam para nos ajudar. E quando você olha para trás e analisa todos seus relacionamentos encontrará aqueles que te ajudaram, aqueles que você ajudou e também aquela parcela que não esteve em nenhum dos dois lados.

Não sei vocês, mas eu tenho bagagens de todos meus relacionamentos anteriores e as carrego comigo. Algumas são muito boas e me ajudam, outras são ruins, mas também ajudam. Elas servem para isso, fazer com que nossas escolhas sejam mais assertivas, pois se já passamos por determinada situação já sabemos lidar com ela. Assim as bagagens servem para que a cada dia possamos errar menos e se errarmos, elas nos ajudarão a sofrer menos e virar a página.

Eu já fiz escolhas baseadas em meus relacionamentos anteriores e até já defini algumas coisas que não quero viver novamente. Sim, eu fiz escolhas a partir das minhas experiências amorosas e levo-as muito a sério, só que às vezes um pouco sério de demais.

O que eu quero dividir com vocês hoje é que eu defini “meus termos” e me policio sempre, não quero deixar que uma pessoa que não se enquadre nesses termos entre na minha vida e me traga de volta as mesmas bagagens ruins que já carreguei. É algo que combinei comigo mesmo e tenho seguido. Pode ser burrice comparar algo do passado com algo do presente? Pode. Mas são coisas que eu não gostaria de lidar.

Eu não sei o quanto erro fazendo isso, o quanto do passado tem voltado para atrapalhar o meu presente, mas acredito que quanto mais velho ficamos (e experientes) mais conseguimos lidar com as coisas e ganhamos mais poder de decisão sobre as nossas escolhas. Porém, apesar de achar que não podemos ficar tristes por escolhas que nós mesmos fizemos, eu ainda fico.

Fiz uma escolha baseada num relacionamento anterior e nada me fará muda-la, sabe? Porém essa escolha fez com que uma pessoa fosse embora da minha vida de um jeito ruim, eu me neguei a ajuda-la. Disse “não” sobre ser a ponte que ela precisava para um problema que eu já tinha vivido em um relacionamento anterior e hoje penso que eu poderia ter tentado.

Eu não queria viver os problemas que já vivi e eu fiz uma escolha: não seria mais a ponte. Nesse caso eu fui exatamente quem eu queria ser e quem eu prometi que seria. Eu cumpri minha promessa e agora estou triste por não ter ajudado uma pessoa que precisava de mim. Estranho a vida né?

Acredito que continuarei cumprindo minha promessa e não sendo mais a ponte, até o dia que não precisarei mais.

A Taína já falou desse assunto aqui no blog também, sobre os medos do passado.

Esse texto faz parte do projeto “Eu, Você e Eles”.

30jul

Vamos combinar uma coisa? Não tem problema você estar solteiro

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Renée Zellweger em cena de O Diário de Bridget Jones, filme de de 2001

Um dia escutei de um amigo sobre meu ex-namorado (enquanto ainda namorávamos): “Nossa você demorou tanto tempo para arrumar alguém e agora ele vai embora. Triste né?”, era realmente triste, pois a pessoa em questão iria realmente embora e eu ficaria solteiro novamente, mas após escutar isso pensei por algum tempo e cheguei a conclusão que não tinha nenhum problema em ficar solteiro.

Ficar solteiro depois de um relacionamento é sempre complicado, por que você está desacostumado a sair para paquerar e a entrar em aplicativos. Após esse término tinha 0% de chances de eu correr para uma balada e beijar vários caras. Mas não é por isso que eu me tornaria uma pessoa triste. Dor de amor passa, pode demorar alguns meses (ou até anos) mas um dia acaba passando. A minha passou.

Acredito que muitas pessoas sentem medo de ficar sozinhas não apenas por medo de não ter outra pessoa e sim por que parece que virou obrigação você estar com alguém. As pessoas não acreditam que você “está bem, obrigado” se está solteiro, elas esperam que você “vá arrumar alguém logo”. Só que o mundo esqueceu que estar sozinho não significa ser solitário. Claro que no fundo todo mundo quer encontrar seu (insira aqui o nome que você dá pra isso) mozão, sua cara metade, tampa da panela e etc., mas gente a vida não é tão curta assim como as pessoas costumam falar. E mesmo se for vamos desperdiçar nosso tempo com aqueles que realmente valem a pena e não sair por aí tentando desesperadamente arrumar um namorado. Como dizem por aí, a pressa é inimiga da perfeição (exceto em fast foods e em agência de publicidade risos).

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Eu passei muito mais tempo da minha vida adulta sendo um cara solteiro do que namorando e, acredito que seja por isso, não tenho pressa para namorar. Quando estou pra ficar com alguém ou dando matchs nos apps, nunca penso em namorar. Penso “nossa que pessoa bonita, gostaria de sair com ela” e pronto. É mais fácil do que você chegar num encontro todo animado pensando que vai conhecer o homem (ou mulher) da sua vida. Vai com calma, cara! Seu dia vai chegar e se não chegar, aprenda a lidar com isso e pare de desabar mágoas pela internet a fora. É engraçado eu falar isso né? Logo o cara que escreve sobre romantismo e relacionamentos falidos aqui no blog.

Acredito que nós devemos viver independente de estar ou não namorando. Se você liga tanto para estar solteiro, o problema não é a falta de você namorado e sim você. Pois não muda nada o fato de você colocar qualquer pessoa na sua vida.

Quando meu amigo disse aquilo que citei no começo desse texto, não tive reação para uma resposta só o fitei por alguns segundos e continuei calado. Hoje eu sei que daria os ombros e perguntaria “qual o problema em ficar solteiro?”.

Esse texto faz parte do projeto “Eu, Você e Eles”.

27jul

Aquele que lembra

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Na foto estão Jim Carrey e Kate Winslet em cena do filme Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, de Michel Gondry (2004)

[Você pode ler esse texto ao som da música Paper Aeroplane, cantada por Angus & Julia Stone ♫]

Eu nunca fui de prometer nada, nunca disse que amaria esse ou aquele para sempre e que viveria feliz com eles para o resto da vida. Não por, naqueles momentos, deixar de acreditar nisso, mas por acreditar que promessas tem um poder muito grande. Eu não faço promessas por fazer, eu preciso ter certeza antes de prometer algo. Mas eu me lembro de todas que você fez.

Diferente daquele que promete, eu escuto as promessas. Escutei de várias pessoas promessas bobas e promessas sérias, algumas delas foram cumpridas e muitas outras não. E eu lembro de todas. Lembro que o colega da escola prometeu algo há mais de 15 anos, lembro da promessa do primeiro namorado, da promessa da amiga da faculdade e das promessas que você fez.

Na verdade eu não me importo tanto com o fato de você não ter cumprido essas promessas, mas quando começo a pensar na vida eu me lembro de todas elas e penso na quantidade de pessoas que “falam da boca pra fora” e prometem o mundo para uma grande quantidade de outras pessoas. Você pode me achar um tolo por fazer um texto como esse, falando de promessas e de lembranças, mas não ligo. Eu acredito que as pessoas deveriam ser sinceras umas com as outras e principalmente sinceras com seus sentimentos, por que sempre terá alguém que lembra.

Queria eu não lembrar de tudo que você me disse, queria eu ser Clementine e optar por esquecer e não sofrer. Queria eu ser Joel e esquecer aqueles que me esqueceram. Queria eu não ter aquele brilho eterno e piscante das lembranças e das promessas. Na verdade eu queria ser aquele que não para no tempo, que não pausa. Aquele moço que não mexe na caixinha de lembranças e cobra, ainda que sem querer, todas as promessas. Mas eu sou esse cara.

Tal como Joel, que optou por esquecer Clementine e se arrependeu, estou eu aqui colocando você em minhas memórias e fazendo se cumprir as promessas, imaginando você comigo naqueles momentos que não vivemos, naquelas promessas que não foram cumpridas. O mais estranho de tudo é que eu não ligo, você não me machuca mais, não me deixa triste. Mas ao mesmo tempo me lembro de tudo e penso “por que as pessoas prometem?“.

Será que ainda não aprendi a seguir em frente? E por isso me lembro de tudo? Não sei me responder isso, só acho que quanto mais penso mais acredito que isso faz parte de mim. Eu não lembro apenas das suas promessas, lembro-me das da minha mãe, do meu pai, dos meus amigos, dos outros namorados, lembro de tudo. Minha mente não me deixa esquecer nada.

Seria o problema o meu não esquecimento? A minha boa memória? Ter boa memória pode ser um problema?

Apesar de hoje “não ligar” para tudo que você disse da boca pra fora, fico pensando que acreditei e que muitos ainda acreditam e será sempre assim. Com base nisso coloco você no grupo dos que prometem e eu no grupo dos que não esquecem. Não acho que nenhum dos grupos sairá ganhando algo, mas acredito que eu não preciso mudar.

Eu não queria ser o Joel ou a Clementine.

Joel e Clementine são personagens do filme Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças. Na história ela decide esquecer ele para sempre e, para isso, aceita se submeter a um tratamento experimental. Após saber disso, ele entra em depressão e faz o mesmo procedimento para esquecê-la, porém desiste e começa a começa a encaixar Clementine em momentos de sua memória que ela não participa.

Esse texto faz parte do projeto “Eu, Você e Eles”.

23jul

Sem prazos ou compromissos

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Anne Hathaway e Jim Sturgess em cena do filme Um Dia, de 2011

[Você pode ler esse texto ao som de Deadlines And Commitments, do The Killers ♫]

Quando você foi embora eu não tive reação. Não briguei, não chorei, apenas deixei uma música para você escutar. Não pedi resposta depois da indicação da música, não queria um comentário, não esperava nada. Meu único pedido era que você escutasse aquela música do The Killers que falava de uma pessoa triste.

A música não funcionava como um aviso ou um pedido de socorro. Ainda não sei se você conseguiu prestar atenção na letra enquanto dirigia por quilômetros, mas ela falava de mim, sabe? É aquela carta que eu nunca te entreguei. Aquela música que foi escrita só para aquele momento e talvez você nem tenha percebido.

A música falava por mim, cada frase havia sido escrita para aquele momento. Era tão estranho, mas casava tão bem com a sua ida. Às vezes eu penso que você só foi embora para que eu pudesse usar aquela música em algum momento da minha vida. O engraçado é que eu não pensei nela antes disso, me veio à cabeça, assim do nada e eu resolvi indicar pra você.

Sem prazos ou compromissos, esse era o tema da canção. Eu te entregava todo o restante de todo o meu sentimentalismo com aquela letra, pois nunca pediria pra você voltar, nunca diria que nessa casa tem um lugar pra você. Parece que toda a minha covardia acabava enquanto te enviava aquela música, por isso que a usei. Com ela, eu acabei entregando um dos meus bens mais preciosos: minhas lembranças.

A música não surtiu o efeito desejado, mas eu já sabia que isso aconteceria e hoje quando a escuto lembro que ela é sua, que nunca foi minha, ela sempre foi pra você. Foi escrita pra você. É como se Brandon Flowers tivesse pensado em tudo.

Anos depois de te enviar essa música, como minha última tentativa de estar com você, pensa o quanto isso foi importante pra mim. Eu acreditei que a letra de uma música pudesse te trazer de volta. Não aceitei minha derrota e pensei que essa música dizia tudo que eu queria dizer e assim não precisava falar mais nada.

I’m not talking about
Deadlines and commitments
Sold out of confusion
There is a place
Here in this house
That you can stay

E depois disso não falei mais nada. Depois dessa música nunca mais nos falamos. Olhando para trás ainda acredito que a canção disse tudo que eu queria dizer no passado. E que hoje não precisamos falar mais nada.

*Esse texto faz parte do projeto “Eu, Você e Eles“.

 

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