/ Eu Você e Eles

29mai

Vivendo sob o olhar imaginário do ausente

Postado por às em Eu Você e Eles, Relacionamento

 

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Hilary Swank e Gerard Butler em cena de P.S. Eu Te Amo, de 2008

[Você pode ler esse texto ao som de Give Me Love do Ed Sheeran ♫]

Acho todo mundo já passou por isso após terminar um relacionamento. Você ainda está conectado a pessoa, ainda espera que ela apareça de surpresa ou te encontre no metrô. Vai na livraria e passa por aquela sessão que ele mais gosta só pra tentar encontra-lo, ou apenas por que sente que ali poderia ser seu lugar também.

Estar (ou se sentir) conectado a alguém que não pensa mais em você é triste, é como viver sob os olhos imaginários de alguém que não existe.

Uma vez fiz um trabalho na faculdade onde tínhamos que transformar um dos contos de Fragmentos de um Discurso Amoroso, de Roland Barthes, em uma peça de rádio. Eu havia acabado de terminar um relacionamento e hoje penso o quanto participar disso fez bem para a evolução daquele sentimento.

Eu sequer imaginava que o final de um relacionamento tinha fases e que precisa colocar minha cabeça dentro d’água, ficar sem respirar para desejar o ar da mesma forma que desejaria a liberdade, para quando sentisse o ar entrando nos pulmões pudesse respirar a aliviado e não viver sob o olhar daquele que não me olha. O conto de Barthes fala exatamente sobre isso.

Não sei quantas vezes, chegando em casa após o trabalho, pensei em encontra-lo no portão me esperando e rever aquele sorriso. Eu olhava para os dois lados da rua como se estivesse sendo observado, andava como se ele estivesse logo ali e pensava que os olhos dele estavam mim, que me seguia na rua, que me via.

Hoje encaro isso como uma verdadeira bobagem. Eu estava tão conectado a ele que nem sequer prestava atenção na realidade, vivia sob a fantasia que era criada na minha imaginação. E olha que tenho uma imaginação bem fértil!

Claro que é fácil descartar esse sentimento agora que já passou, mas nunca diria que isso não voltará a acontecer. Posso me jogar num relacionamento e passar por isso de novo. O que sempre tentarei fazer é aprender com isso. Como disse em outro texto aqui no blog: “o errado dá certo no final, pois aprendemos com os relacionamentos passados e seguimos em frente.”

Viver sob os olhos imaginários de alguém que está ausente é muito romântico, é como voltar no tempo e ser um personagem das histórias clássicas, é como pensar: eu vivo de amor! É absolutamente lindo ao mesmo tempo que é incrivelmente triste. Mas o que seria da beleza se não existisse a tristeza?

A tristeza é linda.

*Este texto faz parte do projeto “Eu, Você e Eles

27mai

Quando o amor acaba, pra onde ele vai?

Postado por às em Eu Você e Eles, Relacionamento
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Paul Schneider e Chiara Mastroianni em cena de Bem Amadas, de 2011

[Você pode ler esse texto ao som de Afterlife do Arcade Fire]

Certo dia te fiz essa pergunta e você não soube responder.
Faz tanto tempo, mas me lembro de cada hora desse meu dia. Lembro-me do momento em que acordei até o momento que fui dormir. Acordei pensando nessa pergunta, mesmo não sabendo que esperaria de você uma resposta, mesmo não sabendo quer íamos nos encontrar no dia. Mesmo não sabemos que essa seria nossa última conversa.

Você chegou e disse uma frase que escutei em um dos filmes que mais gosto. A frase foi “eu não te amo”, do filme Bem Amadas (Les Bien-Aimés), musical francês de Christophe Honoré. No filme quem diz a frase é o personagem de Paul Schneider, em uma na cena linda em que Paul canta com Chiara Mastroianni (a cena está aqui) a música “Qui aimes-tu?” escrita por Alex Beaupain. Na cena das nossas vidas você me disse isso e por algum momento fui Chiara Mastroianni (só espero não ter o mesmo final que a personagem no filme – SPOILER).

E quando você me disse isso eu não chorei. Não sei se eu já tinha chorado tudo que precisava (na verdade não, pois eu já sei os acontecimentos posteriores) ou simplesmente já sabia daquilo. Eu olhei nos seus olhos, sorri e perguntei: Quando o amor acaba, pra onde ele vai?

Alguma coisa dentro de mim precisava saber e entender onde o sentimento estava. Se ele tinha ido passear, comprar cigarros ou se ele nunca havia existido. Eu precisava saber onde estava todo aquele amor. Novamente eu te olhei, sem chorar, e perguntei: Ele nunca existiu, não é?

Você sorriu de volta (olha, eu amava demais esse seu sorriso), me olhou com olhos tristes e disse “ele existiu sim!” e eu continuei sem entender e insisti na pergunta: Pra onde ele foi?

Você deu de ombros, sem saber como me responder. Ficamos em silêncio e depois conversamos sobre o futuro. Você me disse que se me encontrasse um dia, por acaso, daria aquele mesmo sorriso. Já eu respondi “não sei como te olharia e não sei se sorriria”. Hoje eu sei como te olharia, pois já te encontrei por acaso, só não quis que você me encontrasse, eu não saberia como agir. Imagina se eu te encaro e você sorri da mesma forma que sorria antes?

A questão é que até hoje eu me pergunto para onde foi aquele amor todo que você sentia. Será que ele se desfez como acontece com água no estado gasoso? Ou será que ele se escondeu pra sempre? Eu nunca vou saber, aliás, acho que você também não. Mas se um dia tiver outra oportunidade certamente te farei a mesma pergunta e quero que você responda sem receios, afinal “eu não te amo”.

Agora estou ensaiando mentalmente uma resposta caso você me faça a mesma pergunta, mas você me conhece e sabe que na hora que me questionar todos os ensaios que fiz não servirão para nada. Você sabe que não sou de ensaiar.

Meu amor cansou de existir sozinho. Mas o seu, pra onde foi?

*Este texto faz parte do projeto “Eu, Você e Eles“.

26mai

O lado esquerdo da cama

Postado por às em Eu Você e Eles, Relacionamento
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Natalie Portman em cena de Closer, de 2004

[Você pode ler esse post ao som de Paper Aeroplane da dupla Angus and Julia Stone ♫]

Eu nunca havia percebido isso, mas passei quase um ano dormindo do lado direito da minha cama. O lado esquerdo ficava vazio, às vezes meu computador o ocupava, outras apenas o celular. Não sei se era algo normal, se acontece com todo mundo, mas – por quase um ano – estava lá eu deixando o lado esquerdo livre, como se eu fosse uma passageiro na minha própria cama, deixando livre a passagem, como no metrô.

Gosto muito de reunir amigos e não me importo em dividir minha cama com eles, assim por algumas vezes, o lado esquerdo era ocupado e a cama era preenchida, como se nesses momentos não existisse mais espaço a ser preenchido. A cama estava cheia.

Foi muito estranho quando percebi isso.

Ao acordar certo dia, olhei para a cama e vi o lado esquerdo liso, enquanto o meu lado estava desarrumado (eu costumo me movimentar muito durante o sono). Foi nesse momento que percebi que não era por acaso, ou por escolha, ou por qualquer outro motivo. Isso era por você. Não sei… Será que durante muito tempo guardei o lado esquerdo da cama pra você? Esperando que você voltasse?

Eu poderia simplesmente colocar na minha cabeça “o lado direito é mais gostoso, ou mais legal”, mas isso não seria certo, as vezes a realidade é melhor que a fantasia.

No mesmo dia da descoberta, ao ir para a cama a noite, eu sorri. Como se encontrasse uma graça escondida na situação (que é triste, vamos concordar). Enquanto ria feito um bobo, arrumava a cama para me deitar. Posicionando os travesseiros de uma forma que ficasse mais confortável, me deitei ocupando o meio da cama, como se não esperasse mais nada. Como se tivesse cheio, completo.

Não sei quantos dias, semanas ou meses, passaram desde que tive essa reflexão. Não sei se durante a noite passo para o lado direito ou se fico a noite inteira no lado esquerdo da cama. Sei que não me importo com isso, foi algo que passou e me deu uma visão mais clara sobre as mudanças que você fez em minha vida. Sobre como você chegou e foi embora, deixando a esquerda livre para outra pessoa ocupar.

Agora vejo que a verdade é que sempre posso escolher meu lado, seja na cama, no assento do cinema ou na mesa do bar.

O fato é que não percebemos na hora, essas coisas demoram para vir a tona. Mas relacionamentos sempre somam. É como se o errado desse certo. Quem poderia imaginar que dormir de um lado ou de outro na cama seria algo maior do que o acaso? Eu demorei pra perceber.

*Este texto faz parte do projeto “Eu, Você e Eles“.

26mai

Nosso amor só existia no quarto

 

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Thure Lindhardt em cena de Deixe a Luz Acesa, de 2013

[Você pode ler esse post ao som de Love Like This do Kodaline ♫]

Eu te amei.
Amei cada segundo que estava com você. Não posso falar que foi desde o primeiro dia ou da primeira vez, pois seria mentira, mas eu te amei. Era fácil amar você, estava sempre disponível e pronto para receber tudo que eu poderia dar. Meu amor, meu ciúmes, meus amigos, minha vida. Eu te dei quase tudo e em troca você se deu. Apenas se deu.

É engraçado pensar que eu te amei, te conheci, sorri pra você, fiz amor com você, revelei meus segredos e meus medos. E fiz tudo isso entre quatro paredes, pois fora do espaço físico que nos encontrávamos eu não te conhecia. Não sabia como você era com seus amigos, não sabia se você faz piadas bobas pra chamar atenção, ou se fazia o tipo blasé e era caladão. Não conheci sua melhor amiga e nem fiz carinho no seu cachorro.

E hoje você me pergunta: isso importa?

Hoje? Sim, isso importa.
Não importou antes, nada importava antes. Só importava estar com você, naqueles dois dias por semana que nos trancávamos, dávamos risadas, fazíamos sexo, contávamos um para o outro sobre nossos dias, sobre nossos medos e planos para o futuro, trocávamos presentes…

Mas com quem eu estava fazendo isso? A verdade é que não faço a mínima ideia. E isso é algo estranho e triste. Mostrei-te a minha vida e você viveu nela, mas eu não estive na sua. Eu não existia e isso tudo é culpa minha.

Não sei como isso aconteceu ou em que ponto cheguei (sei que outras pessoas devem ter vivido algo parecido e podem compartilhar comigo algumas experiências) para deixar que você entrasse na minha vida sem dar tanto em troca, sem mostrar quem realmente era. Sem me mostrar suas piadas bobas ou seu jeito blasé com seus amigos.

Eu aprendi com isso, aprendi com você e com essa experiência. Hoje escuto “Love LikeThis”, do Kodaline, e percebo como fui burro.

But I know
I don’t mind at all
A love like this won’t last forever
A love like this
A love like this
A love like this won’t last forever

Sabe por quê?
Um amor como esse não tem como durar para sempre.

*Este texto faz parte do projeto “Eu, Você e Eles“.

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