/ esquecimento

25nov

O desesperado e o disposto

Postado por às em Amor, Eu Você e Eles, Relacionamento
laviedadele07

Adèle Exarchopoulos em cena do filme Azul é a Cor Mais Quente, de 2013

[Você pode ler esse texto ao som de Flesh And Bone, do The Killers ♫]

Entrava novamente na Starbucks pensando qual seria o nome dessa vez, não ligava para o quanto isso era estranho, já fazia parte da minha vida e aqueles atendentes bacanas já sabiam o esquema, eu falaria o nome de um deles. Se alguém me observasse poderia achar que eu já entrava naquele lugar sabendo qual nome diria, sabendo qual história lembraria e qual capítulo da minha vida tiraria das lembranças e reviveria um pouco, mas não. Na verdade eu decidia isso na hora, enquanto olhava o cardápio das bebidas quentes, pois eu já sabia qual seria meu pedido e o tempo olhando pra frente era gasto pensando em qual seria a história daquele dia.

Decidi, peguei a bebida, olhei aquele nome desenhado no copo e sai. Nessa parte do dia uma trilha sonora diferente entrava em minha cabeça, claro que o fato de eu andar sempre com fones de ouvido ajudava a entrar no clima, afinal estava revivendo histórias. A música da vez era mais animada, em sua melodia, a letra como sempre era triste (95% das minhas musicas eram assim). E lá fui eu, andando disposto a reviver uma história em que o protagonista era um deles, só que eu preferia chamá-los apenas de “você”, era mais fácil e assim não precisava dar nomes. Se até os rostos estavam saindo da minha cabeça, por que eu deveria chamar pelo nome? Eu me sentia melhor quando mentia pra mim mesmo, dizendo que poderia ter esquecido algo.

Indo a caminho do trabalho, quando comecei a entrar naquela na história escolhida. Estávamos nos dois na mesma avenida, havíamos marcado de nos encontrar por lá, mas ao mesmo tempo não era um encontro, seria algo marcado que aconteceria por acaso, seria um acaso planejado. Quando te vi, fiz minha melhor atuação, como nunca tinha visto você eu poderia fazer de conta que não te vi, enquanto esperava que desse o primeiro passo, passei por você, fingi que não te vi e você deu o primeiro passo.

Demorei trinta minutos para entender você, saber qual era a história que seus olhos queriam contar e compreendi a tamanha solidão que o acompanhava. Você era um solitário e procurava desesperadamente algo que o tirasse disso, uma mão que o puxasse pra fora desse mar de tristezas que era sua vida. E lá estava eu, imóvel, sorridente e passando por mudanças tão gostosas. Eu estava disposto e você, desesperado.

Esse desespero virou amor e me consumiu. Eu não precisava de muita coisa quando estava com você, pois você queria me dar tudo. Você estava desesperado a ser alguém para alguém e eu estava lá sendo qualquer pessoa, mas ao tempo eu era eu. Nesse tempo que passamos juntos eu não menti, não fui outra pessoa. Enquanto você era uma pessoa que não gostava de si mesmo, que sofria por suas escolhas, que escondia suas vontades. Eu demorei em perceber isso.

Em trinta minutos eu entendi você, mas demorei anos para te compreender. Você foi embora sem dizer adeus, simplesmente partiu. Eu não compreendia, até chegar à conclusão que você conseguiu ser quem queria ser, conseguiu ultrapassar aquela tristeza que estava sob seus ombros quando te conheci, você conseguiu ser a pessoa que imaginava que seria, e hoje é completamente diferente daquela que conheci e fingi não ver.

Você passou por aqui e bagunçou tudo, demorei a voltar ao normal e ser aquele de antes. Mas eu não te culpo, talvez você estivesse me preparando para eles.

*Esse texto faz parte do projeto Eu, Você e Eles.

27jul

Aquele que lembra

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Na foto estão Jim Carrey e Kate Winslet em cena do filme Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, de Michel Gondry (2004)

[Você pode ler esse texto ao som da música Paper Aeroplane, cantada por Angus & Julia Stone ♫]

Eu nunca fui de prometer nada, nunca disse que amaria esse ou aquele para sempre e que viveria feliz com eles para o resto da vida. Não por, naqueles momentos, deixar de acreditar nisso, mas por acreditar que promessas tem um poder muito grande. Eu não faço promessas por fazer, eu preciso ter certeza antes de prometer algo. Mas eu me lembro de todas que você fez.

Diferente daquele que promete, eu escuto as promessas. Escutei de várias pessoas promessas bobas e promessas sérias, algumas delas foram cumpridas e muitas outras não. E eu lembro de todas. Lembro que o colega da escola prometeu algo há mais de 15 anos, lembro da promessa do primeiro namorado, da promessa da amiga da faculdade e das promessas que você fez.

Na verdade eu não me importo tanto com o fato de você não ter cumprido essas promessas, mas quando começo a pensar na vida eu me lembro de todas elas e penso na quantidade de pessoas que “falam da boca pra fora” e prometem o mundo para uma grande quantidade de outras pessoas. Você pode me achar um tolo por fazer um texto como esse, falando de promessas e de lembranças, mas não ligo. Eu acredito que as pessoas deveriam ser sinceras umas com as outras e principalmente sinceras com seus sentimentos, por que sempre terá alguém que lembra.

Queria eu não lembrar de tudo que você me disse, queria eu ser Clementine e optar por esquecer e não sofrer. Queria eu ser Joel e esquecer aqueles que me esqueceram. Queria eu não ter aquele brilho eterno e piscante das lembranças e das promessas. Na verdade eu queria ser aquele que não para no tempo, que não pausa. Aquele moço que não mexe na caixinha de lembranças e cobra, ainda que sem querer, todas as promessas. Mas eu sou esse cara.

Tal como Joel, que optou por esquecer Clementine e se arrependeu, estou eu aqui colocando você em minhas memórias e fazendo se cumprir as promessas, imaginando você comigo naqueles momentos que não vivemos, naquelas promessas que não foram cumpridas. O mais estranho de tudo é que eu não ligo, você não me machuca mais, não me deixa triste. Mas ao mesmo tempo me lembro de tudo e penso “por que as pessoas prometem?“.

Será que ainda não aprendi a seguir em frente? E por isso me lembro de tudo? Não sei me responder isso, só acho que quanto mais penso mais acredito que isso faz parte de mim. Eu não lembro apenas das suas promessas, lembro-me das da minha mãe, do meu pai, dos meus amigos, dos outros namorados, lembro de tudo. Minha mente não me deixa esquecer nada.

Seria o problema o meu não esquecimento? A minha boa memória? Ter boa memória pode ser um problema?

Apesar de hoje “não ligar” para tudo que você disse da boca pra fora, fico pensando que acreditei e que muitos ainda acreditam e será sempre assim. Com base nisso coloco você no grupo dos que prometem e eu no grupo dos que não esquecem. Não acho que nenhum dos grupos sairá ganhando algo, mas acredito que eu não preciso mudar.

Eu não queria ser o Joel ou a Clementine.

Joel e Clementine são personagens do filme Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças. Na história ela decide esquecer ele para sempre e, para isso, aceita se submeter a um tratamento experimental. Após saber disso, ele entra em depressão e faz o mesmo procedimento para esquecê-la, porém desiste e começa a começa a encaixar Clementine em momentos de sua memória que ela não participa.

Esse texto faz parte do projeto “Eu, Você e Eles”.

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