/ gay

16fev

A falta de ar

InsideLlewynDavis

Oscar Isaac em cena do filme Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum, de 2013

[Você pode ler esse texto ao som de Colour Me In, do Damien Rice ♫]

Nunca fui o tipo de cara que teve sorte ou facilidades na vida, de longe como “carente” que sou desde infância sofria demais com o favoritismo dos meus pais com o meu irmão. Tenho uma tia que se chama Hermínia, nome esse me deixa feliz só de pensar ou ouvir, pois essa tia sempre fez e faz o possível e o impossível para que eu fosse mais feliz, e sempre me salvava tentando me fazer sentir-me especial. Mas, cansado de toda indiferença dos meus pais tentei ser independente e passar o maior tempo longe de todos eles, nessa crise de carência não saciada resolvi jogar a verdade e me assumi durante uma discussão, e mais uma vez não tive acolhimento ou aconchego, sucintamente minha mãe proferiu a frase “não quero esse tipo de gente debaixo do mesmo teto que eu”, recolhido no meu eu e com ego inflamado comecei uma aventura fora de casa. Até a saída final da casa dos meus pais se passou um ano, mas por fim sai.

Fui procurar aconchego e carinho nos braços de um rapaz dois anos mais novo que me chamou pra dividir um apartamento e uma vida, tínhamos um cachorro, uma vida boa e até divertida, pelo menos nos seis primeiros meses, logo fui deixado de lado e ignorando sinais que às vezes nos negamos a ver, que me dizia que eu era opção e não uma escolha. Um dia saí do trabalho mais cedo e fui à casa de um amigo do casal (eu e meu ex), e ao chegar lá encontrei os dois dormindo abraçados. Isso mesmo, o meu ex e o “meu amigo”, nessa hora fiquei em choque sem saber o que fazer, fui tentar acordar e querer uma explicação, mas acabei agredido e com uma cicatriz no braço direito, foi quando perdi as esperanças e resolvi vir pra São Paulo de vez, cidade que era um latente em minha mente desde adolescente e mediante toda a situação resolvi ir embora de Natal o mais breve possível.

Maio de 2008, por volta das 19h eu chegava em São Paulo. Era a personificação da inocência e, com pouco tempo, acabei me iludindo por um jovem paulista e me envolvi em um relacionamento. Como sempre estava ignorando os sinais de ser uma opção e não a escolha.

Um pouco mais de 6 anos de relacionamento, morando junto e vivendo um sonho, percebi que aos poucos aquilo foi se tornou um pesadelo, cansado de tudo eu criei coragem para colocar um ponto final a pedidos abusivos, rejeições e cobranças que beiravam o absurdo, assim em dezembro de 2015 resolvo ir morar só e ver se a distância resolvia um pouco. Imaginei que a saudade poderia “temperar” esse relacionamento, mas como um temporal que do nada vira tormenta, me vi atormentado pelos mesmos fantasmas da falta de confiança, ciúmes e tudo mais que vem junto no pacote, e em janeiro decidimos colocar um ponto final em tudo.

Segui sozinho. Sem rumo e sem destino como sigo até hoje, vivendo um dia de cada vez, tentando não me iludir mais, colocando a experiência em prática sem tentar desanimar e nem cair. Mas, no final do dia quando a escuridão parece me devorar lembro-me de Hermínia e fico com um pouco da luz dela e sempre penso que no fim tudo se resolverá.

*Esse texto é um episódio de um leitor do EdH, que pediu que fosse mantido em sigilo.

06jul

As melancias devem continuar sendo redondas

Postado por às em a vida como ela é, Amor, vida
TheNormalHeart-filme

Mark Rufallo e Matthew Bomer em cena de The Normal Heart, de 2014

[Você pode ler esse texto ao som de Same Love, do Macklemore, Ryan Lewis e Mary Lambert ♫]

Esses dias estava conversando com uma amiga e ela citou uma matéria em vídeo em que os japoneses faziam aquele experimento que deixa a melancia quadrada. Eu já tinha visto fotos dessas melancias, mas nunca tinha pensando nisso direito, sabe? A gente vê a imagem acha bizarro e nem liga, mas dessa vez eu parei e pensei “por que os caras querem mudar o formato da melancia?”, ela já é linda redonda. Com a melancia redonda eu consigo segurar de uma forma que fica legal comer, sabe? Eu seguro ela com as duas mãos e vou dando mordidas, sujo meu bigode… Essa experiência faz parte da melancia, parte da história dela e de como ela é.

No mês passado do casamento igualitário foi aprovado nos EUA. Na semana passada Moçambique descriminalizou a homossexualidade e o aborto. Na mesma semana, a Câmara dos Deputados aprovou a redução da maioridade penal aqui no Brasil. Essas mudanças aconteceram num curtíssimo intervalo de tempo. Difícil acreditar, né? Estamos numa época de mudanças, a gente pisca os olhos e algo já mudou. Muitas dessas mudanças são boas, algumas são ruins. Mas devemos nos atentar a todas elas e enxergar como isso afetará a sociedade.

A melancia, que usei como exemplo no título desse post, é redonda. Ela nasceu assim. Da mesma forma que a melancia não escolheu ser redonda, eu não escolhi ser gay e você não escolheu ser heterossexual (ou gay, ou lésbica, ou negro), nós simplesmente somos assim e devemos permanecer assim. Faz parte da nossa essência.

Imagina uma sociedade em que as pessoas não precisam fingir que são iguais apenas para que as outras pessoas as aceitem? Eu tenho um pouco de experiência em fingir, em ser uma pessoa que não sou, pois era muito difícil aceitar que sou gay.

Lembro-me da primeira vez que disse “eu sou gay” em voz alta, eu fiquei nervoso e usei algo como desculpa para essa minha “condição”, eu tinha muito medo de ser rejeitado. Eu temia pelo futuro, temia pela minha família, temia pelos meus amigos. O mesmo medo que muitos outros jovens têm hoje em dia.

Estamos evoluindo, aos poucos as coisas estão mudando e eu torço para ainda estar vivo no dia em que uma mulher não sofra preconceito ou assédio pelo simples fato de ser mulher. Eu torço para que as mudanças boas cheguem logo, não a mudança do formato da melancia, a mudança que aceite ela redonda e ponto final.

Minha irmã tem 22 anos e começou a faculdade agora, ela teve um filho aos 18 anos e agora, que o Murilo já está crescido, voltou a estudar. Na faculdade algumas pessoas falam “Nossa, você está estudando e tem um filho?” e ela responde com “Sim, estou estudando por que tenho um filho, estou estudando por ele”, mas as algumas pessoas não entendem que essa é a vida dela e outras nem aceitam. Estranho né? Você querer mudar negativamente a vida de outra pessoa

Imagina como é triste não conseguir ser o que você é? Ter vergonha ou medo de ser você mesmo? Ter vergonha de voltar a estudar, ter medo de amar ou pior ter medo de sair na rua durante a noite?

Eu espero que chegue um momento em que nossa sociedade não tenha mais medos, não tenha mais vergonhas. Que os jovens gays consigam conviver com seus amigos e sua família, que eles consigam amar. O amor é tão lindo, né? Por que eles deveriam mudar? Ser redondo é tão legal.

Você sabia que conforme você olha a luz refletindo na melancia ela brilha? Sim, ela é redonda e brilha. Devemos mudar isso não. E você também não deve mudar, eu não mudei e sou bem feliz assim.

08jun

E o segundo encontro não acontece

Postado por às em Amor, Eu Você e Eles, Relacionamento

 

like-crazy-movie-loucamente-apaixonados

Anton Yelchin e Felicity Jones em Loucamente Apaixonados, de 2012

[Você pode ler esse texto ao som de Second Chances do Imagine Dragons ♫]

Nos encontramos no bar, flertarmos e nos beijamos, foi legal conhecer além dos aplicativos. É diferente falar com a pessoa e descobrir como ela age, como ela fica sem jeito quando recebe um elogio ou quando é encarada por mais de 5 segundos. Um primeiro encontro é isso, é simples assim.

No primeiro encontro existe aquela excitação em tudo. Até o olhar excita! Aquele toque sem querer dar mãos, o primeiro beijo, o olhar depois do primeiro beijo… É como se estivéssemos nus e fôssemos observados pelos olhos atentos do interessado. Você está tenso, mas você gosta disso.

Lembro de alguns primeiros encontros que me deixaram bem mais interessado pela outra pessoa, alguns que me deixaram completamente desinteressado e outros que me fizeram pensar que havia encontrado uma nova amizade, tipo aquela pessoa que você quer por perto mas não deseja.

Antes de um primeiro encontro ficamos com aquele frio na barriga, pensando se vamos agradar ou não, se seremos agradados e como vamos agir caso o outro tenha mau hálito. Vários pensamentos (bobos e sérios) invadem nossa mente criativa, tentando – em vão – tecer saídas para todas as possibilidades, para o certo ou errado…

E quanto acaba são outros sentimentos que tomam conta. Pensamos que não podemos ser os primeiros a enviar mensagens, por que “se o outro está interessado, ele que escreva” ou “não posso mostrar que estou mais interessado” e os jogos começam. E quando estamos falando de um jogo, estamos falando que deve existir um ganhador e um perdedor e isso faz com que não exista um segundo encontro.

Você já conhece o outro, gostou de estar com ele, pensa que poderia passar dos beijos, que poderia convidá-lo para uma bebida e passar a noite juntos, mas você não faz. E o outro não faz. E ninguém mais faz.

E o segundo encontro não acontece.

Também né? Vou perder meu tempo com algo que pode durar pouco? Vou me doar por alguém que mal conheço? Vou tentar entrar num relacionamento sendo que sou um fracasso? Por que eu faria isso?

E o segundo encontro não acontece.

Você nunca sabe onde errou. Pergunta para si mesmo qual o motivo e aí a tensão volta. Mesmo assim você não faz nada. Você espera ou parte pra outra. Olha o contato no Whatssap e pensa “poderia mandar um oi”, mas volta atrás.

E o segundo encontro não acontece.

*Este texto faz parte do projeto “Eu, Você e Eles“.

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